O jornalismo livre está sob ameaça. Na verdade, não há jornalismo livre que não tenha uma ameaça à espreita. São os modelos económicos e a tecnologia, a crise da publicidade e a crise das democracias, as fake news e os fake journalists, as tentativas de manipulação, as perseguições, as grandes e pequenas corrupções…

Sempre o jornalismo se tem de afirmar livre porque só por existir é ameaçado. Quantos mensageiros foram assassinados por Gengis Khan apenas por serem portadores de más notícias? E não eram sequer jornalistas.

E, no entanto, todas as crises são grandes oportunidades para reinventar. Nunca se consumiu tanta informação como hoje, nem nunca ela foi tão crucial para as tomadas de decisão.

O desafio de tornar esta atividade rentável para as empresas que a produzem de facto e para os seus profissionais, para os jornalistas e todas as atividades sem as quais ela não existia, tem de ser de todos.

Mas não a qualquer preço. A informação em geral e o jornalismo em particular têm hoje uma enorme missão e responsabilidade: combater a desinformação com as armas do conhecimento e da verdade. Para isso devem conquistar os públicos pela inteligência sem menosprezar a emoção - e não o inverso.

Aqui, na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, a nossa missão é reconhecer os profissionais que fazem jornalismo, atribuindo-lhes o título, e ajudar a definir os limites éticos e deontológicos da prática jornalística no dia-a-dia. Uma tarefa difícil, como todos sabemos, onde nem sempre as regras bastam.

Temos de ir aos princípios. Comecemos, então, pelo princípio: convido-o a revisitar o Estatuto do Jornalista como se fosse a primeira vez. Nós também o vamos fazer, atentos às novas realidades e desafios, disponíveis para aclarar os valores e os procedimentos.

Porque, como dizia o jornalista brasileiro Cláudio Abramo:

“O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício quotidiano do carácter”.

 

Leonete Botelho
Lisboa, 10 de Abril de 2019